Projeto Serra do Urubu (PE) completa 15 anos

A Serra do Urubu é uma área que abriga um dos maiores fragmentos remanescentes de Floresta Atlântica Montana do estado de Pernambuco, localizado nos municípios de Jaqueira, Lagoa dos Gatos e São Benedito do Sul. Este fragmento de cerca de 1.400 hectares está situado em uma região biogeográfica única do Domínio da Mata Atlântica conhecida como Centro de Endemismo Pernambuco¹, que abrange os fragmentos remanescentes da Mata Atlântica situados ao norte do rio São Francisco.

Devido ao histórico de uso e ocupação do território, sobretudo pela atividade secular de produção da cana-de-açúcar, principal responsável pelo desmatamento da Mata Atlântica do Nordeste, essa região é considerada a porção mais degradada e ameaçada da Mata Atlântica. Mais 90% da cobertura vegetal original foi destruída e o que restou está espalhado em pequenos fragmentos isolados. Dado esse contexto e a sua relevância biológica, a Serra do Urubu é considerada pela BirdLife International/SAVE Brasil como uma área globalmente prioritária para a conservação das aves e da biodiversidade² e também está incluída nas áreas prioritárias para a conservação reconhecidas pelo Ministério do Meio Ambiente.

Paisagem da Serra do Urubu (PE). Foto: Arquivo SAVE Brasil.

Paisagem da Serra do Urubu (PE). Foto: Arquivo SAVE Brasil.


Atualmente, a Serra do Urubu abriga 285 espécies de aves. Dentre elas: 13 estão ameaçadas de extinção, 32 são endêmicas da Mata Atlântica e 19 são endêmicas do Centro de Endemismo Pernambuco.

Nome Científico

Nome em Português

Grau de ameaça IUCN/BirdLife (2019)

Leptodon forbesi

gavião-gato-do-nordeste

EN

Touit surdus

apuim-de-cauda-amarela

VU

Thalurania watertonii

beija-flor-de-costas-violetas

EN

Ramphastos vitellinus

tucano-de-bico-preto

VU

Terenura sicki

zidedê-do-nordeste

CR

Myrmoderus ruficauda

formigueiro-de-cauda-ruiva

EN

Synallaxis infuscata

tatac

EN

Xipholena atropurpurea

bacacu-de-asa-branca

VU

Iodopleura pipra

anambezinho

EN

Phylloscartes ceciliae

cara-pintada

CR

Hemitriccus mirandae

maria-do-nordeste

VU

Spinus yarrellii

pintassilgo-do-nordeste

VU

Tangara fastuosa

pintor-verdadeiro

VU

Aves endêmicas e ameaçadas da Serra do Urubu. (a) zidedê-do-nordeste (Terenura sicki), (b) pintor (Tangara fastuosa), (c) beija-flor-de-costas-violetas (Thalurania watertonii). Fotos: (a) Silvia Linhares, (b) Ciro Albano, (c) Alexandre Gualhanone.


Na Serra do Urubu, já foram registradas 40 espécies de mamíferos, 38 de anfíbios (3 delas ameaçadas de extinção), e 31 espécies de répteis. A Serra do Urubu é considerada uma das áreas mais ricas em angiospermas (plantas com flores) da Floresta Atlântica do Nordeste³. Além das angiospermas (832 taxa), já foram registradas 138 espécies de Samambaias e Licófitas e 86 espécies de Briófitas.

Biodiversidade da Serra do Urubu. (a) Coendou speratus, espécie endêmica e ameaçada de extinção (b) Hylomantis granulosa, (c) Enyalius aff. Catenatus. Fotos: (a) Ricardo Ribeiro), (b) Igor Joventino, (c) Carlos Gussoni.


Como tudo começou?

Em 2004, a SAVE Brasil adquiriu uma propriedade de 362 hectares denominada Fazenda Pedra D’Antas, no município de Lagoa dos Gatos (PE). A fazenda era vizinha à Reserva Particular do Patrimônio Natural Frei Caneca (630 ha), área criada em 2002 e pertencente à Usina Frei Caneca S/A. Naquela época, devido à alta vulnerabilidade socioeconômica no contexto local, havia uma alta demanda dos recursos florestais pela comunidade local. As principais ameaças à conservação daquela floresta eram a retirada de madeira para produção de carvão, a caça e a captura de aves.

Fazenda Pedra D’Antas no início do Projeto Serra do Urubu. (a) Área desmatada, (b) Caieira utilizada para a produção, de carvão (c) Caieira e área de floresta queimada. Fotos: Arquivo SAVE Brasil


Paralelamente, naquela ocasião, a importância biológica do fragmento de floresta remanescente da Serra do Urubu já era evidente. Aquela floresta guardava uma característica muito singular: era o último local de ocorrência conhecido do limpa-folha-do-nordeste (Philydor novaesi), uma espécie de ave endêmica da Mata Atlântica de Pernambuco e Alagoas que estava criticamente ameaçada de extinção. Assim, com o objetivo de proteger este patrimônio insubstituível, a SAVE Brasil iniciou o Projeto Serra do Urubu. Era preciso garantir a proteção daquela floresta antes que fosse tarde demais!

Limpa-folha-do-nordeste (Philydor novaesi). Foto: Carlos Gussoni.


A fase inicial do projeto consistiu em eliminar os vetores diretos de desmatamento e em estabelecer a estrutura de governança na área. Em 2011, a Fazenda Pedra D’Antas foi reconhecida como Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) pelo governo estadual. A RPPN Pedra D’Antas pertence à SAVE Brasil e, junto com a RPPN Frei Caneca, forma um contínuo de cerca de 1.000 hectares de Mata Atlântica protegida e conservada.

Paisagem da Reserva Pedra D’Antas, Serra do Urubu (PE). Foto: Haroldo Palo Jr.


O Projeto Serra do Urubu atua em 4 frentes principais: Pesquisa & Monitoramento, Restauração Florestal, Educação e Ecoturismo.


Resultados

Ao longo dos 15 anos do Projeto Serra do Urubu, a SAVE Brasil tem alcançado bons resultados em prol da conservação das aves e da Mata Atlântica da região. A floresta está em processo de regeneração natural e os dados do monitoramento anual de avifauna indicam a melhoria da qualidade do habitat florestal. Desde 2005, o número total de espécies de aves registradas na floresta quase triplicou. A composição da comunidade de aves também tem sido modificada. Espécies típicas de áreas abertas e bordas de mata, como o canário-do-mato (Myiothlypis flaveolus) e vite-vite-de-olho-cinza (Hylophilus amaurocephalus), que antes eram comuns no interior da floresta não são mais registradas ou ocorrem apenas fora das áreas de floresta. Isso indica que a floresta está mais úmida e mais favorável à ocorrência dessas espécies mais especialistas ambientalmente.

Paisagem da Reserva Pedra D’Antas 15 anos depois do início do Projeto Serra do Urubu (PE). No detalhe: antiga chaminé do Engenho Pedra D’Antas e o Centro de Visitantes da Reserva (casa amarela). Foto: Bárbara Cavalcante.


O projeto também realiza atividades educação para a conservação com o objetivo de aproximar a comunidade local da Reserva e cultivar um sentimento de orgulho e pertencimento que estimule o engajamento da comunidade com a conservação das aves e da Mata Atlântica. Até 2019, cerca de 6.000 pessoas foram diretamente beneficiadas pelas ações do projeto.

Atividades educativas do Projeto Serra do Urubu. (a) Plantio de mudas com estudantes (b) Observação de aves), (c) Visitas a Reserva Pedra D’Antas. Fotos: Arquivo SAVE Brasil.


As ações são guiadas pelo princípio “Conhecer para Conservar” e, por isso, nos últimos anos a infraestrutura para a visitação da Reserva Pedra D’Antas foi melhorada para atrair mais visitantes e proporcionar uma experiência educativa e inspiradora de contato com a natureza. Atualmente, a infraestrutura voltada para a visitação inclui: o Centro de Visitantes; a Trilha Interpretativa na floresta com cerca de 2,5 km de extensão; e o Jardim dos Beija-flores, onde o visitante pode observar facilmente mais de 20 espécies de beija-flores que ocorrem na Reserva, além de outros grupos de aves. Em 2019, foi inaugurada a Torre de Observação de Aves na trilha interpretativa.

Torre de observação de aves da Reserva Pedra D’Antas, Serra do Urubu (PE). (a) Vista de baixo da torre, (b) e (c) Vista plataforma de observação da torre. Fotos: Adriano Monteiro.


Todos esses resultados só foram possíveis graças aos apoiadores e parceiros que acreditaram no trabalho da SAVE Brasil ao longo destes anos:

Apoiadores

BirdLife International, Aage V. Jensen Charity Foundation, Albert & Nancy Booggess, American Bird Conservancy, BirdLife International, Conservation International, Conservation Leadership Programme, Fauna & Flora International, Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Fundação SOS Mata Atlântica, Hughes Net, Jeniam Foundation, March Conservation Fund, Marshall Reynolds Foundation, Ministério do Meio Ambiente (PDA), Ricoh, Wildlife Conservation Society, WWF.

Parceiros

Associação para Proteção da Mata Atlântica do Nordeste (AMANE), Prefeitura Municipal da Lagoa dos Gatos.


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¹ Os centros de endemismos são áreas únicas assim chamadas por abrigarem espécies exclusivas que não ocorrem em outros locais.

² As IBAs (Important Bird and Biodiversity Area - IBA), são uma classificação criada pela BirdLife International para identificar os sítios prioritários para a conservação das aves e da biodiversidade em todo o planeta. A Serra do Urubu é uma das 234 IBAs (Important Bird and Biodiversity Areas) identificadas no Brasil. Saiba mais aqui:https://www.birdlife.org/worldwide/programme-additional-info/important-bird-and-biodiversity-areas-ibas

³ MELO, Aline et al. Serra do Urubu, a biodiversity hot-spot for angiosperms in the northern Atlantic Forest (Pernambuco, Brazil). Check List, [S.l.], v. 12, n. 1, p. 1842, feb. 2016. ISSN 1809-127X. Available at: <https://www.biotaxa.org/cl/article/view/12.1.1842>. Acesso em: 10 jan. 2020. doi:http://dx.doi.org/10.15560/12.1.1842.